Guimarães Rosa - Originais de Tutaméia

Guimarães Rosa - Originais de Tutaméia

Birth of us, Daehyun Kim

Birth of us, Daehyun Kim

“Assim atribui-se a Voltaire - que, outra hora, diz ser a mesma amiúde “o romance do espírito” - a estrafalária seguinte definição de “metafísica”: “É um cego, com olhos vendados, num quarto escuro, procurando um gato prêto… que não está lá.”
Seja quem seja, apenas o autor da blague não imaginou é que o cego em tão pretas condições pode não achar o gato, que pensa que busca, mas topar resultado mais importante - para lá da tacteada concentração.”
Guimarães Rosa, in Tutaméia

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.

Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.

Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és –
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês…

Fernando Pessoa, Conselho
“Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento - mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei os filósofos e
até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande
saber. Achei que os eruditos nas suas altas
abstrações se esqueciam das coisas simples da
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo -
o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu
olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre borboletas. Vi que elas dominam
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.”
Manoel de Barros, in Memórias Inventadas - Terceira Infância
“Alguém, trajado de seda branca, percebe que não pode despertar; pois está desperto e perturbado pela realidade. Assim se refugia medrosamente no sonho, e permanece de pé no parque, sozinho no negro parque. E a festa é longe. E a luz mente. E a noite o envolve, fresca. E pergunta a uma mulher que para ele se inclina:
“És tu a noite?”
Ela sorri.
Então, ele se envergonha de seu traje branco.
E quereria estar longe, sozinho, armado.
Completamente armado.”
Rainer Maria Rilke, in ‘A Canção de Amor e Morte do Porta-Estandarte Cristovão Rilke’
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Parolagem da Vida - Carlos Drummond de Andrade

Como a vida muda.

Como a vida é muda.
Como a vida é nuda.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida 
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor! 

“Outros ares, sete mares
Voar, mergulhar…
O que nos dá coragem
não é o mar nem o abismo
É a margem, o limite
e sua negação.”
Humberto Gessinger

Pelos cantos palmeio o dia

Pelos cantos palmeio o dia.
Os atalhos me atrasam.
No remoer o remiúdo
apalpo a cautela dos silêncios.
Os grilos me grassam.
Pousado no liso da palavra
desenvolvo os inteiros da tarde -
De preferência levando pássaros.
Escrevo pedra pra rescostar pescoço.
Sombras repousam nas frases moles.
Estou acertado no ponteiro das nuvens -
Capaz no segundo de um minuto
se recolha a eternidade.

Nessas alturas
Nas fendas da chuva o sol verte.
Eu fui catei os fiapos daquela tarde -
Fazia um céu de beber com os olhos.

Das copas nenhum bem-te-vi tritrina -
Acho as águas resumiram os pássaros.
Só uns aqueles urubus dependurados nos ventos;
Vai um dobrou a esquina das nuvens -
Veio ciscou meu sossego.

Urubu se esclarece?
Parece nem não carece asa.
Nem imensidão de altas tempestades
apaga o risco preto desses encantos.
No rumo branco ele vela seus escuros -
Vai pros azuis.

O poente imerge no fim das vistas.
O que era branco arrebóis tingiram. 
No macio das borboletas chuvas se secam.
Derradeirozinho só o um beija-flor -
Suspendeu os ares.

        *     *      *                    
 
A chuva rodeia-se em panos negros.
Pairam noites entre olhos e águas -
As nuvens estão enormes como um segredo.
Um pingo repinga escorrido
nos fundos do meu ouvido -
Os silêncios me chiam.  

A noite é um dia comprido.

Faz amanhã em outros lugares -
Escuro é um dia fora do nosso alcance. 

Aceita tuas sombras


Aceita tuas sombras.
Deixa aceso o escuro da tua ignorância.
Pode que no extenso pano da noite
ainda reluzam teus apagados lumes.
(Não se urdem as estrelas no breu
e no abandono?)


O centro das luzes nos cega -
Comamos o sol pelas beiradas.
(É sempre bela a chuva ao sol.)
Como buracos-negros são abastecidos
a luz sirva aos teus abismos.
Que ao fusco o lúteo se funda
e a claridade lhe seja leve.